CatÁlogo
Osculum obscenum
Vagido.
Subo apressado a escadaria.
Procuro em todos os cantos do andar superior.
Lhufas.
Ofegante, volto ao térreo.
Outra vez, vagido.
Corro para o quintal.
Avanço pelo pomar, até o portão dos fundos.
Saio à beira da rodovia.
Borrasca.
Um caminhão de bois me ensopa de lama.
E nada.
Onde está meu filho?
Ligo para a maternidade.
Voz automatizada do outro lado.
Até nos hospitais os atendentes se parecem com uma secretária eletrônica.
Ou com funcionários de telemarketing.
“Preciso falar urgentemente com o...”
“No momento, não pode atender.”
“Mas eu nem sequer lhe disse o nome da pessoa!”
“Não importa o nome, a resposta é sempre esta: no momento, não pode atender.”
“Droga!”
“O senhor gostaria de conhecer outros serviços do nosso sistema de...”
“Pro inferno, papagaio.”
Atiro o telefone contra a parede.
Raio! Onde estão meu filho & minha esposa?
Chamo o cocheiro & ordeno:
“Prepare os cavalos e a sege.”
“Já está tudo pronto, senhor, a carruagem se encontra no pátio frontal.”
“Ótimo, Franz, você nunca foi tão eficiente. Vamos agora mesmo pra maternidade.”
“Qual delas, senhor?”
“Ora, parvo condutor de sege, aquela onde está nascendo o meu filho.”
“Filho?”
“Sim, Franz, resolvi ter um filho. Alguém precisa herdar meus bens.”
“Assim de repente, um filho, senhor?”
“Exato, Franz, resolvi agir. Todo homem de sucesso tem de saber a quem legar suas conquistas. Por isso, o herdeiro.”
“Eu também gostaria de ter um, mas estou velho demais pra pensar nessas coisas.”
“Realmente, Franz, como iria você, um velho, viúvo, encomendar e manter um filho, ainda mais com esse seu miserável salário?”
“Não se esqueça, senhor, de que herdei grandes empresas e valiosíssimos bens anos atrás e hoje sou mais rico do que pode imaginar. Se quisesse, nem mais precisaria trabalhar, disso o senhor também sabe. Porém, me coloco nesta situação de semiescravidão apenas pra poder bradar aos quatro cantos que nós, os abastados, também nos submetemos aos sacrifícios materiais.”
