CatÁlogo
Soluções físicas e químicas para se fazer um Kafka [II]
Tudo que possuo está aqui. Repare, uma das quatro portas do armário está aberta. São três gavetas, duas prateleiras e um vão pra sapatos. No vão, duas sandálias tipo franciscanas, um sapatênis e um tênis muito novo pra fazer caminhada. Caminhadas que faço no sótão da casa, todas as madrugadas das três às três e quarenta. Quarenta minutos de exercícios físicos. Tá bom, vai, é mentira, há anos que não faço caminhada. Ali, na primeira gaveta, cuecas e meias, todas iguais, da mesma marca, variando apenas a cor. Na segunda, pijamas, dois, um cinza de seda; o outro, marrom, de algodão, que é o que eu mais gosto, sem dúvida. Tanto gosto que uso a semana toda. E quando chega sábado o pijama está fedidíssimo. Mas eu gosto do cheiro. Na primeira prateleira, de baixo pra cima, há doze calças. Sendo apenas duas as que me servem, pois as outras são ou muito velhas ou herdadas de parentes mais magros. E mesmo das que me servem uma delas fica levemente apertadinha na cintura. Claro, não posso me esquecer: agora no meio das doze tem mais duas novas. Ganhei no natal. Mas como é praxe nessa época, vou acabar tendo que voltar à loja pra trocar uma delas, que ficou apertada também. Os parentes têm essas ideias, me presentear com jeans. Dizem que é pra dar um ar mais jovial. Bondade e burrice deles. No meio das saias amassadas ficam as camisas. Nas minhas, contas umas treze. Seis são as que me servem bem. De todas tirei as etiquetas da gola. Não tem coisa que me irrite mais que etiqueta. Depois, na segunda prateleira estão os pulôveres. Só de ver me dão desânimo. Ainda bem que é verão. E olha que eu gosto do inverno. E também gosto dos pulôveres. O problema é que eles me dão alergia, me fazem espirrar. Quando está frio é delicioso vestir o pulôver e ir a um café do centro tomar chocolate quente. E espirrar. É bastante lógico o que estou dizendo. Ou não? Mesmo com toda a geada lá fora eu digo que é verão. Em frente aos pulôveres descansam dois frascos de perfume. E um pote de polvilho antisséptico da Granado. As marcas dos perfumes não sei. Franceses. Engraçado eu gostar do cheiro do meu pijama e também adorar esses perfumes. Na estante, livros em cima, livros em pé, alguns deitados, dois porta-retratos nos quais apareço com meu afilhado. Num deles além do meu afilhado estão meu irmão, sua esposa e uma tia nossa. Tem esses dois quadros na parede, um pintado por mim com o dizer “Toda vez que tento me compreender, acabo brigando com deus”, e um outro que é um desenho e não uma pintura, com tinta acrílica. É um desenho da silhueta de uma mulher. Quem assina a obra é Uiara Bartira. Artista que nasceu em Curitiba. A obra é de 1989. Sem dúvida é um desenho muito bonito. Eu pensava ter herdado do meu avô. Mas não, isso apareceu sem muita explicação na minha prateleira. Há também outro objeto que herdei. Esse de minha avó. É um bêbado que assobia e mexe a cabeça pra lá e pra cá. Veste uma calça verde e uma bota preta. Está agarrado no poste, tem uma garrafa na mão direita. É barbudo, usa chapéu. Parece um bêbado daqueles de filmes norte-americanos da década de 50. Bem ao lado do bêbado tem um calendário do ano dois mil e alguma coisa, que vai acabar daqui a uns dias. É um desses calendários que a gente ganha de empresas amigas cujos donos vão a almoços de negócios com pessoas que se acham importantes. Mais ali à esquerda, reparo agora, repousa uma Bíblia. Eu devia levantar da cama, pegar a Bíblia, abri-la e, já deitado novamente, dar uma espiadela no livro de Jó (Jó e não Jô), que é de indignar qualquer um. Depois eu poderia dormir em paz, sem medo de terremotos.
